De onde vêm as minhas histórias

Algumas histórias começam muito antes de serem escritas.

Começam nos lugares onde vivemos, nas pessoas que encontramos, nas estradas que se cruzam, nas lembranças que permanecem e até naquilo que o tempo tentou apagar.

A minha começa entre São Sebastião do Passé e Ilhéus, nas histórias da minha família, nas lembranças da infância e nas experiências que, de alguma forma, foram encontrando seu caminho até as páginas dos meus livros de poemas, contos e romances.

Minha história

Lembro-me de ouvir meus tios contarem que Santinho, como meu pai era chamado pela família, aos dezesseis anos foi ao cartório solicitar uma cópia de sua certidão de nascimento e, aproveitando o momento, alterou sua idade, acrescentando dois anos. Isso lhe permitiu viajar com uma empresa de terraplanagem que estava na região.

Essa aventura permitiu que meu pai aprendesse a dirigir máquinas e buscasse novos caminhos por meio dos conhecimentos adquiridos no trabalho. Esse trabalho o levou para longe de São Sebastião do Passé e da família por muitos anos, mas também lhe permitiu formar uma nova família ao encontrar minha mãe em Ilhéus.

Quando se casaram, ela tinha dezesseis anos e ele, vinte e seis. Ela o seguiu de volta para São Sebastião do Passé, onde nasci.

Mas meu pai não parava de viajar. Deixou o serviço de terraplanagem e passou a ser carreteiro, mas não deixou a família para trás. Eu e minha mãe o acompanhávamos na espaçosa cabine de sua carreta.

Então veio o segundo filho, Jair, que viveu apenas alguns dias. Como não estávamos em São Sebastião do Passé, ele foi sepultado somente pelo meu pai. Minha mãe ainda se recuperava do parto, e eu era pequena demais para compreender aquela perda.

Seguimos adiante.

O terceiro filho, Valter, nasceu em Salvador. O quarto, Valdir, nasceu em São Sebastião do Passé.

A família crescia, e meu pai tomou uma difícil decisão: não mais levar a esposa e os filhos juntos em suas viagens. A partir do nascimento de Valdir, José dos Santos — o Zé da Hancock, como era conhecido no ramo da terraplanagem — levou a família para morar em Ilhéus, para que minha mãe, grávida do quinto filho, outra menina, Normali, pudesse ter os cuidados da família materna enquanto ele seguia viajando a trabalho.

Foi nesse período que aprendi a amar Ilhéus tanto quanto amava São Sebastião do Passé.

Enquanto corria livre entre as fazendas Carmo e Taquipe, brincava debaixo dos pés de manga e ia para a casa de farinha ajudar a descascar mandioca para fazer farinha quando meu pai nos levava de visita à sua cidade natal, também experimentava aquela liberdade infantil em Aritaguá, um pequeno povoado em Ilhéus. Lá, ajudava a colher o cacau no sítio do meu avô e participava da pisa do cacau, atividade em que a polpa era separada dos caroços, que depois eram postos para secar nas barcaças e levados para a fábrica, onde seriam moídos e transformados em pó de chocolate.

Minha mãe ainda teve mais duas filhas: Marli, que nasceu em Salvador, e Irani, que nasceu em São Sebastião do Passé.

Assim, eu considerava Ilhéus e São Sebastião do Passé meus postos fixos, meus portos seguros: em Ilhéus estavam meus avós maternos; em São Sebastião do Passé, meus avós paternos.

Porém, cidades como Jequié, Ibotirama, Itarantim, Xique-Xique, Valença, Salvador e tantas outras também fizeram parte da minha infância enquanto viajávamos com meu pai.

Aventuras mil e tantas saudades!

Algumas lembranças ainda surgem a partir de uma fotografia ou de um relato familiar. E, ao recontar essas histórias hoje, percebo coincidências da vida que, naquela época, eu jamais poderia imaginar.

Meu pai era dez anos mais velho que minha mãe. Quando se casaram, ela tinha dezesseis anos e ele, vinte e seis. Ele chegou dez anos antes a este mundo. Ela, porém, partiu primeiro — dez anos antes dele.

Quando minha mãe morreu, tinha apenas 33 anos. Meu pai tinha 43.

Dez anos depois, ele também partiu, aos 53.

Quando minha mãe nos deixou, eu tinha quinze anos. Quando chegou a vez do meu pai, eu tinha 25.

E há ainda uma coincidência que guardo de maneira muito particular: meu pai morreu exatamente no dia do meu aniversário.

Naquele dia, ele me disse que só sentia o tempo passar quando eu completava uma idade nova. Foi o único dia em que ele me parabenizou.

Hoje, compreendo um pouco melhor aquele homem e a geração à qual ele e minha mãe pertenciam. Era uma geração em que nem sempre se falava sobre sentimentos. O afeto era demonstrado muito mais pelas ações do que pelas palavras.

Acho que sou um pouco dos dois.

Talvez por isso escrever seja, para mim, uma forma de liberdade. Durante muito tempo, não consegui dizer em voz alta aquilo que sentia. É escrevendo que consigo encontrar palavras para coisas que, muitas vezes, não sei dizer.

Existe, porém, uma pessoa que consegue arrancar de mim algumas dessas palavras.

Minha filha, Maria Helena.

Quando percebe minha dificuldade em verbalizar o que sinto e como sinto, ela chega de mansinho, brincando, me abraçando e, de alguma maneira, exigindo que eu devolva o abraço.

Talvez ela nem saiba, mas esses gestos também me ensinam a falar.

Hoje, quando escrevo sobre pessoas, memórias, afetos e as marcas que a vida deixa em nós, percebo que muitas dessas histórias começaram muito antes de eu imaginar que um dia seriam transformadas em palavras.

Talvez seja por isso que escrever seja tão libertador para mim: porque algumas histórias precisam primeiro ser vividas, depois lembradas e, finalmente, escritas.